JAMBOREE - UM RELATO DO ACAMPAMENTO HOLANDÊS
(por Rafael Eigi Hoshino)

28 mil escoteiros, 166 países diferentes. Em agosto de 1995, o Jamboree Mundial se tornou uma realidade para os 34 escoteiros representantes do G. E. Falcão Peregrino em meio a esta incrível variedade humana. O Jamboree representava não só uma experiência única dentro de minha vida escoteira como também uma oportunidade de entrar em contato com as mais diferentes culturas.

Por esse motivo, nossa chegada a Flevoland na Holanda foi marcada pela perplexidade diante da grandiosidade do acampamento. No dia 1º, a montagem das barracas, toldos e portais concretizava a esperança de todos, afinal o Jamboree já era uma realidade. No dia seguinte, deu-se a abertura oficial do evento com uma festa na arena central e jogos de confraternização nos subcampos.

A organização holandesa mostrava-se extremamente eficiente, procurando corrigir as dificuldades de Jamborees anteriores. Havia, para cada subcampo, um caminhão-frigorífico que entregava as caixas de alimentos às patrulhas a cada dia. Não havia a necessidade de caminhar grandes distâncias para se chegar aos banheiros ou se obter água. E, ainda, os serviços ( supermercado, loja escoteira, banco e outros) ocupavam uma posição central em relação a todas as áreas de acampamento.

As atividades eram todas coordenadas conforme as necessidades de transporte ou materiais contando com bases muito bem preparadas pelo staff holandês. Bons exemplos eram as bases de balonismo, mergulho, paragliding (que com muita sorte eu pude ir), o chamado Survival Track (uma trilha de sobrevivência) e a Vila de Desenvolvimento Global (que contava com projetos de renomadas organizações não-governamentais como a Unicef, o WWF e a Anistia Internacional).

No dia 3, visitei a Vila de Desenvolvimento Global com o restante da patrulha onde participamos da base da Anistia Internacional com atividades de conscientização humanitária. Pintamos nossas palmas em uma grande bandeira a ser hasteada no último dia de eventos. No World Scout Center, ajudei a fazer um jornalzinho escoteiro numa patrulha com suíços, alemães, americanos, japoneses e brasileiros. Nossas mensagens tinham a intenção de incentivar a paz mundial e o entendimento entre os povos, traduzindo o clima predominante no Jamboree.

Passeamos também por bases de delegações como a da Islândia (com ferramentas e máquinas de resgate na neve) e pelos heaquarters das associações escoteiras dos países participantes com exposições de trajes típicos e objetos tradicionais da cultura desses países.

No dia 4, a excursão às wetlands holandesas nos revelou a beleza dessa floresta, criada artificialmente em áreas tomadas ao mar. Após o tratamento do solo para reduzir o sal, o reflorestamento se tornava possível e permitia a vinda de animais de outras regiões que passavam a adotar as wetlands como residência, especialmente os pássaros.

No dia 5, nossa patrulha permaneceu no campo e, com isso, aproveitamos para trocar distintivos e conversar com escoteiros dos "4 cantos do mundo".

O domingo (6 de agosto) amanheceu com um clima ainda mais amistoso e festivo que os dias anteriores. Era o dia dos subcampos, tempo de integração e celebração do "espírito escoteiro" que envolvia a todos. Bolinhos de bacalhau e doces portugueses, bolachas finlandesas, petiscos japoneses, fundue suíço, arroz com legumes chinês e nossos brigadeiros garantiam a integração gastronômica... Não esqueceremos do amigo Franklin (brasileiro com cidadania chinesa) e do amigo holandês que apelidamos de "Pancake Man" por suas soberbas panquecas de uvas passas, maçã e açúcar...

À noite, todos fomos assistir a parada de barcos, organizada pelos escoteiros do mar. O show de luzes e o reflexo nas calmas águas da Holanda eram um convite às canções escoteiras na praia. Com isso, rapidamente nos juntamos aos libaneses numa inusitada confraternização (veja a foto na seção de Fotografias deste site) que acabou num grande "banho" coletivo.

Desde o dia anterior eu estava numa grande ansiosidade. Tinha tirado a sorte grande e fiquei com o ticket de atividade mais concorrido: o paragliding. Pode parecer um tanto estranho num país sem grandes altitudes mas a "decolagem" não se dava por elevações e sim por um cabo de aço tracionado por um motor. Após algumas instruções sobre o manejo desta mistura de asa-delta e pára-quedas, estávamos prontos para voar sozinhos... Na verdade, ainda faltava muito para isso e um instrutor acompanhava os escoteiros. Podia-se ver inclusive parte do acmpamento num vôo curto mas muito emocionante.

No dia 8, fui ao Survival Track. A trilha (repleta de obstáculos de madeira, cordas, pneus, água e muita lama) demorou 2 anos para ser construída e contava com fossos, pontes de corda (comando craw, falsa baiana, etc) e madeira e outras grandes construções.

No dia 9, éramos a patrulha de serviço novamente e teríamos que permanecer no campo. Com isso, aproveitei o dia para trocar distintivos e idéias com pessoas de todos os tipos. Ao entardecer, houve o Fogo de Conselho do subcampo com apresentações de dança e música.

O dia 10 foi o último dia oficial do Jamboree e, por isso mesmo, foi marcado por muita emoção, especialmente durante a festa de encerramento. No palco da arena central, o "Roberto Carlos" holandês cantava tradicionais músicas escoteiras e outras criadas para o Jamboree, enquanto nós, lacrimejantes, tentávamos acompanhá-lo. A música-tema do Jamboree ainda teve um espetáculo à parte: um show de luzes na arquibancada (com lanterninhas distribuídas pelo staff). Houve ainda uma festa de fogos de artifício que iluminou os sentimentos dos 28 mil escoteiros e transferiu aos chilenos a esperança de um novo encontro...