Olimpíadas, escotismo e a importância histórica do voluntariado

“o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social, ou outros campos…”  Nações Unidas

Em razão de em 2016  sermos a futura sede dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, nos últimos anos temos tido a oportunidade de acompanhar diferentes discussões sobre os grandes desafios e necessidades que o evento exigirá nas áreas de infra-estrutura, transporte, segurança, equipamentos esportivos e organização dos jogos em geral. Cabe destacar que todos estes pontos dependem diretamente do fator humano, elemento chave de qualquer organização que almeja alcançar seus objetivos..

Nos Jogos Olímpicos de Londres me chamou a atenção a quantidade e a efetividade da atuação dos voluntários (70.000), o que seria dois jamborees mundiais juntos apenas de voluntários. Até onde pude acompanhar e presenciar eles tem desempenhado um papel muito importante nas mais variadas áreas. Se você utiliza uma linha de trem ou metrô que oferece acesso a algum centro esportivo, em todos os lugares encontrará dezenas de voluntários acessíveis, aqui chamados de “London Ambassadors”. Em Londres os voluntários ficam distribuídos em vários pontos com seus coletes, crachás , mochilas  e com todas as informacões necessárias, ficam organizando o intenso  fluxo de pessoas, sanando dúvidas, enfim, oferecendo todo suporte  para os milhares de turistas que estão na cidade durante a realização dos jogos. Pode-se presenciar esta mesma  dedicação nos parques onde ocorrem eventos abertos, nas bilheterias, dentro dos estádios, nas lojas de artigos dos jogos e até mesmo dentro das quadras, onde voluntários servem água para árbitros e equipe de mídia, limpam  a quadra nos intervalos  ou simplesmente observam atentamente para encaminharem qualquer pedido de ajuda ou solicitarem alguma intervenção de segurança. Pode-se perceber que todos desenvolvem suas atividades com empenho e motivação, o sorriso no rosto e olhar atento quebra um pouco da imagem mais reservada dos ingleses e assim demonstram que estão contentes por participarem da efetiva realização dos jogos.

A participação de voluntários é uma das mais antigas tradições dos Jogos Olímpicos. Desde de Atenas (1896),  sabe-se que pessoas e organizações sociais já nos primeiros anos dedicaram-se voluntariamente para poder viabilizar a continuidade e fortalecimento dos jogos. As primeiras organizações com registro em  documentos históricos que começaram a contribuir com a participação de seus voluntários foram o exército e os escoteiros. O  fundador dos Jogos modernos, Pierre de Coubertin, foi um grande incentivador e gestor do Movimento Escoteiro, sendo também o fundador da organização dos escoteiros da França em 1911. Já nos jogos de 1912 em Estocolmo, os escoteiros passam a ter uma atuação expressiva e importante como voluntários,  naquela época atuaram na entrega de mensagens, ajudando na segurança, contribuindo na organização do público e desempenhando outras atividades de suporte geral. O envolvimento dos escoteiros continuou em todos os Jogos Olímpicos até os dias de hoje , tendo apenas sido paralisada a sua participação no periódo próximo a segunda guerra mundial  onde alguns regimes ditatoriais utilizaram seus próprios movimentos de jovens. Após a 2º. Guerra Mundial os escoteiros voltam a participar dos jogos olímpicos atuando nas mesmas atividades e em cerimônias de entrega de medalhas.

Nos documentos históricos dos jogos olímpicos existem muitas curiosidades sobre a participação dos escoteiros, em diferentes casos elogios formais devido o empenho e dedicação dos escoteiros. Há um caso em especial que chamou atenção, uma mãe que recebeu uma medalha do comitê olímpico internacional por ter seus 6 filhos atuando voluntariamente em uma das olímpiadas.

Quem já foi a um jamboree internacional e a uma olímpiada certamente identifica muitas semelhanças na estrutura dos dois eventos, não somente pelo fato de os dois eventos serem realizados a cada quatro anos e  também por serem eventos internacionais de grande magnitude. A energia, as bandeiras, os materiais de comunicação diários, o formato dos centros de apoio, a atuação de muitos voluntários em diferentes áreas, a presença de dezenas de organizações parceiras similares, a cerimônia de abertura e encerramento, tudo realmente destaca a similaridade do formatos dos dois eventos. Em um dos documentos que tive acesso na pesquisa, o autor afirma que o envolvimento dos escoteiros nas primeiras olímpiadas foi tão grande e em razão do forte relacionamento do fundador dos jogos olímpicos modernos com o escotismo, que o Jamboree Mundial dos Escoteiros acabou sendo idealizado no mesmo modelo das olímpiadas. O que para mim deixou clara a razão de tal semelhança existir entre os dois eventos.

Com a evolução dos Jogos Olímpicos a participação de voluntários ampliou-se, abrindo-se para outras organizações e para pessoas sem qualquer vínculo com organizações sociais. Em 1992 nos Jogos de Barcelona o trabalho voluntário ganha ainda maior expressão,  tendo sido  destaque por sua  importância e papel decisivo desde  a candidatura aos jogos até a sua realização com grande sucesso, onde atuaram cerca de 35 mil voluntários.

Atualmente os Jogos Olímpicos envolvem grandes investimentos, em Londres estima-se  30  bilhões de reais, toda esta grandiosidade certamente promove diferentes impactos econômicos, sociais, culturais, midiáticos e esportivos. Muitas vezes  dentro deste cenário pode nos passar desapercebido a importância da atuação dos voluntários e todo seu valor histórico como uma das mais sólidas tradições dos Jogos Olímpicos modernos. Na minha opinião, o trabalho voluntário é uma das mais bonitas e expressivas formas de manter a essência e os valores deste épico evento esportivo, que infelizmente algumas vezes parece direcionar-se mais para um grande negócio midiatíco do que para uma celebração do esporte e de valores humantários e universais. O trabalho voluntário confere aos Jogos Olímpicos  não só a economia e a viabilidade de milhares de serviços importantes para o sucesso do evento, mas também permite que os jogos e o país sede tenham a possibilidade de promover o pertencimento social da população junto ao evento. O voluntário é uma pessoa engajada e motivada a agir por um propósito, em sua iniciativa residem diferentes anseios e motivações, dentre elas destacam-se os valores de solidariedade, serviço altruísta e cooperação, princípios presentes na ação do voluntariado que são convergentes a essência e valores dos Jogos Olímpicos. O voluntariado nos jogos proporcionam o fortalecimento e a possibilidade de vínculos positivos entre pessoas e causas, neste caso, o vínculo entre pessoas e a prática de esportes. No Brasil o Comitê Olímpico Local prevê a atuação de 60 mil voluntários. Portanto, se você tem espiríto de serviço voluntário e gosta de esportes, esta será uma ótima oportunidade de fazer parte deste grande evento que certamente será inesquecível.

  • Informações pesquisadas no Centre d’Estudis Olímpics i de l’Esport, UAB, Spain e no site http://coi.gov.uk/
Comentários
2 respostas para “Olimpíadas, escotismo e a importância histórica do voluntariado”
  1. Gian Naressi de Sá disse:

    muito bom Bias
    Poderiamos ter uma campanha para incentivar os escoteiros brasileiros a participarem das olimpiadas em 2016

    Gian

    • Rodrigo_biasi disse:

      Oi Gian, o site do COMITE OLIMPICO LOCAL do RJ ja abriu inscricoes para voluntarios e tambem existem muitas vagas para contratacao profissional abertas…vale a pena sim estimular esta participacao ! forte abraco !

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